sábado, 26 de agosto de 2017

23 Coisas que NÃO nos contaram sobre o Capitalismo - PARTE 1

Olá amigos do Bufunfa! Fim do mês está chegando e está quase na hora de apresentar uma atualização do balanço patrimonial e o demonstrativo dos resultados do mês.

Enquanto o fim do mês não chega, gostaria de compartilhar com vocês um excelente conteúdo extraído do livro "23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo" do sul coreano Ha-Joon Chang.

Eu sou o tipo de pessoa que dá mais atenção em ver as coisas de uma maneira mais macro, ao invés de me ater à questões micro. Isso de certo modo reflete-se na maneira como realizo investimentos.

Acho muito importante analisar uma empresa e seus balanços financeiros. Também o volume de negócios de determinada ação ou bolsa de valores por exemplo. Porém acho ainda mais importante ver "a coisa" como um todo. A coisa toda a que me refiro são os mercados (e os agente de mercado) e o sistema capitalista em si.

Recomendo fortemente a leitura deste livro que pode ser encontrado "gratuitamente" na internet se assim desejar.

A leitura do mesmo só confirmou a minha visão de que o Capitalismo é um jogo que funciona para empoderar ainda mais os poderosos e manter a base da pirâmide com as condições mínimas para sustentar o topo. Sabemos que entre os colegas existem os adoradores admiradores do Capitalismo, e entendo perfeitamente esse ponto de vista. Por mais que os tópicos abaixo pareçam muito provocativos e avessos a nossa compressão (percepção) do que é Capitalismo. o intuito é justamente nos deixar instados a nos debulhar aos conceitos apresentados.

Neste processo identifiquei muitos pontos muito bem colocados pelo autor que tanto endossam as qualidades do Capitalismo, como desnudam as principais motivações da elite capitalista com esse sistema que perpetua a riqueza exclusivamente para si.

Antes de mais nada, é necessário alertar que as afirmações abaixo foram revoltantes também para mim, que em princípio parecia bastante asneira. No livro ele fundamenta cada afirmação abaixo, e não tem como não dar razão para o autor em vários pontos. Recomendo que leiam o livro.

Vamos ver resumidamente quais são esses 23 segredos sobre o Capitalismo?

1 - Não existe algo como um livre mercado
O livre mercado não existe. Todo mercado tem algumas regras e limites que restringem a liberdade de escolha. O mercado só parece livre porque estamos tão condicionados a aceitar as suas restrições subjacentes que deixamos de percebê-las. Reconhecer que os limites do mercado são ambíguos e não podem ser determinados de uma maneira objetiva nos permite entender que a economia não é uma ciência como a física ou a química, e sim um exercício político. Os economistas que defendem o livre mercado podem querer que você acredite que os limites corretos do mercado podem ser cientificamente determinados, mas isso é incorreto. Se os limites do que você está estudando não podem ser cientificamente determinados, o que você está fazendo não é uma ciência.
Quando os economistas que defendem o livre mercado dizem que uma certa regulamentação não deve ser introduzida porque restringiria a “liberdade” de um certo mercado, eles estão meramente expressando a opinião política de que rejeitam os direitos que serão defendidos pela lei proposta. O seu disfarce ideológico é fingir que a sua política não é realmente política, mas sim uma verdade econômica objetiva, enquanto a política das outras pessoas é política. Não obstante, eles são tão politicamente motivados quanto os seus adversários.
Libertar-nos da ilusão da objetividade do mercado é o primeiro passo que temos que dar para poder entender o capitalismo.

2 - A gestão das empresas não deve estar voltada para o interesse dos seus donos
Os acionistas podem ser os donos das corporações mas, sendo os mais instáveis dos participantes do negócio, com frequência são aqueles que menos se importam com o futuro a longo prazo da empresa (a não ser que sejam tão grandes que não possam realmente vender as ações sem abalar seriamente o negócio). Isso acontece porque eles desejam grandes lucros a curto prazo, e tomam decisões que podem ser maléficas a longo prazo. Eles podem deixar a empresa com mais facilidade; tudo o que precisam fazer é vender as suas ações, se necessário com uma pequena perda, desde que sejam inteligentes o bastante para não aderir a uma causa perdida por tempo demais. Em contrapartida, é mais difícil para outros, como funcionários e fornecedores, deixar a empresa e encontrar outro compromisso, porque é provável que tenham acumulado habilidades e bens de capital (no caso dos fornecedores) especificamente relacionados com as empresas com quem fazem negócio. Por conseguinte, eles têm um interesse maior na viabilidade da empresa do que a maioria dos acionistas. É por esse motivo que maximizar o valor do acionista é ruim para a empresa, bem como para o restante da economia.

3 - O salário da maioria das pessoas nos países ricos é maior do que deveria ser 
A defasagem salarial entre os países ricos e pobres não existe principalmente por causa de diferenças na produtividade individual e sim devido ao controle da imigração. Se a imigração fosse livre, a maioria dos trabalhadores nos países ricos poderia ser, e efetivamente seria, substituída por trabalhadores dos países pobres. Em outras palavras, os salários são determinados politicamente.

4 - A máquina de lavar roupa "mudou" mais o mundo do que a internet o fez
Sob o aspecto das consequentes mudanças econômicas e sociais, a revolução da internet (pelo menos ainda) não foi tão importante quanto a máquina de lavar roupa e outros eletrodomésticos, os quais, ao reduzir enormemente a quantidade de trabalho necessário para a execução das tarefas domésticas, possibilitou que as mulheres ingressassem no mercado de trabalho e praticamente extinguiu profissões como os serviços domésticos. Não devemos “inverter o telescópio” quando contemplamos o passado subestimando o velho e superestimando o novo, porque isso nos leva a tomar os mais diferentes tipos de decisões errôneas a respeito da política econômica nacional, das políticas corporativas e das nossas próprias carreiras.

5 - Pressuponha o pior com relação às pessoas e você receberá o pior
O interesse pessoal é uma característica extremamente poderosa em quase todos os seres humanos. No entanto, não é o nosso único impulso. Com frequência, não é nem mesmo a nossa principal motivação. Na realidade, se o mundo estivesse repleto das pessoas egoístas que encontramos nos compêndios de economia, ele ficaria paralisado porque passaríamos a maior parte do tempo trapaceando, tentando capturar os trapaceiros e punindo os que fossem apanhados. O mundo funciona como funciona somente porque as pessoas não são os agentes totalmente egoístas que a economia do livre mercado acredita que elas sejam. Precisamos projetar um sistema econômico que, ao mesmo tempo que reconheça que as pessoas são frequentemente egoístas, explore outros motivos humanos e extraia o que há de melhor nas pessoas. O mais provável é que se pressupusermos o pior com relação às pessoas, obteremos o que há de pior nelas.

6 - A maior estabilidade macroeconômica não tornou a economia mundial mais estável
A inflação pode ter sido subjugada, mas a economia mundial tornou-se consideravelmente mais instável. A proclamação entusiástica do nosso sucesso ao controlar a volatilidade dos preços nas três últimas décadas não deu atenção à extraordinária instabilidade exibida pelas economias ao redor do mundo nessa ocasião. Houve um número enorme de crises financeiras, entre elas a crise financeira mundial de 2008, que destruiu a vida de muitas pessoas por meio do endividamento pessoal, da falência e do desemprego. O foco excessivo na inflação distraiu a nossa atenção de questões como o pleno emprego e o crescimento econômico. O emprego se tornou mais instável em nome da “flexibilidade do mercado de trabalho”, o que desestabilizou a vida de muitas pessoas. Apesar da afirmação de que a estabilidade dos preços é a precondição para o crescimento, as políticas que tencionavam reduzir a inflação produziram apenas um crescimento anêmico a partir da década de 1990, época em que a inflação foi supostamente subjugada.
A nossa obsessão pela inflação deve terminar. A inflação se tornou o bicho-papão que tem sido usado para justificar políticas que favoreceram principalmente os detentores dos ativos financeiros, à custa da estabilidade a longo prazo, do crescimento econômico e da felicidade humana.

7 - As políticas de livre mercado raramente fazem os países pobres ficarem ricos
O desempenho dos países em desenvolvimento no período em que o estado dominou o desenvolvimento foi superior ao que eles alcançaram durante o período subsequente de reforma voltada para o mercado. Houve alguns fracassos grandiosos da intervenção estatal, mas quase todos esses países cresceram muito mais rápido, com uma distribuição de renda mais equitativa e com um número bem menor de crises financeiras, durante os “maus dias do passado” do que o fizeram no período das reformas voltadas para o mercado. Além disso, também não é verdade que quase todos os países ricos tenham ficado ricos por meio de políticas de livre mercado. A verdade é mais ou menos o oposto. Com apenas algumas exceções, todos os países ricos de hoje, entre eles a Grã-Bretanha e os Estados Unidos — os supostos lares do livre comércio e do livre mercado — ficaram ricos por meio da combinação do protecionismo, subsídios e outras políticas que hoje eles aconselham os países em desenvolvimento a não adotar. As políticas de livre mercado tornaram poucos países ricos até agora e poucos ficarão ricos por causa dela no futuro.

8 - O capital tem uma nacionalidade
Apesar da crescente “transnacionalização” do capital, quase todas as empresas transnacionais na realidade continuam a ser empresas nacionais com operações internacionais, em vez de companhias genuinamente desprovidas de nacionalidade. Elas realizam no seu país de origem a maior parte das suas atividades básicas, como pesquisas avançadas e a definição de estratégias. Quase todos os seus principais tomadores de decisões também são cidadãos do país de origem da empresa. Quando precisam fechar fábricas ou reduzir empregos, geralmente o último lugar onde fazem isso também é no país de origem, por vários motivos políticos e, acima de tudo, econômicos. Isso significa que o país de origem se apropria da maior parte dos benefícios de uma corporação transnacional. É claro que a nacionalidade não é a única coisa que determina o comportamento das corporações, mas deixamos de considerar a nacionalidade do capital ao nosso próprio risco.

9 - Não vivemos em uma era pós-industrial
Podemos estar vivendo em uma sociedade pós-industrial no sentido que quase todos nós trabalhamos em lojas e escritórios e não em fábricas. Mas não ingressamos em um estágio de desenvolvimento pós-industrial no sentido que a indústria deixou de ser importante. A maior parte (embora não a totalidade) do encolhimento da parcela da manufatura na produção total não se deve à queda na quantidade absoluta de bens manufaturados produzidos e sim à queda nos seus preços com relação aos dos serviços, o que é causado pelo seu crescimento mais rápido na produtividade (produção por unidade de insumo). Hoje, embora a desindustrialização se deva principalmente a esse crescimento diferencial de produtividade através dos setores, e portanto talvez não seja uma coisa negativa em si mesma, ele tem consequências negativas para o crescimento da produtividade na economia como um todo e para o balanço de pagamentos, o que não pode ser desconsiderado. Quanto à ideia de que os países em desenvolvimento podem em grande medida passar por cima da industrialização e entrar diretamente na fase pós industrial, trata-se de uma fantasia. O escopo limitado deles para o crescimento da produtividade torna os serviços um mecanismo de crescimento ineficaz. A baixa negociabilidade dos serviços significa que uma economia mais baseada em serviços terá uma menor capacidade de exportar. Uma receita menor com a exportação significa uma capacidade mais fraca de comprar tecnologias avançadas do exterior, o que por sua vez conduz a um crescimento mais lento.

10 - Os Estados Unidos não têm o padrão de vida mais elevado do mundo
O cidadão americano médio de fato tem um comando maior sobre os produtos e serviços do que o seu equivalente em qualquer outro país do mundo com exceção de Luxemburgo. No entanto, considerando-se a grande desigualdade do país, essa média é menos precisa ao representar a maneira como as pessoas vivem do que a média de outros países com uma distribuição de renda mais semelhante. A elevada desigualdade também está por trás dos indicadores de saúde mais insatisfatórios e das estatísticas de crime mais desfavoráveis dos EUA. Além disso, o mesmo dólar compra mais coisas nos EUA do que na maioria dos outros países ricos principalmente porque nos EUA os serviços são mais baratos do que em qualquer outro país semelhante, graças ao maior número de imigração e péssimas condições de trabalho. Além do mais, os americanos trabalham um número bem maior de horas do que os europeus. Considerando-se a hora trabalhada, o comando deles sobre os produtos e os serviços é menor do que o de vários países europeus. Embora possamos debater que estilo de vida é melhor — mais bens materiais com menos horas de lazer (como nos EUA) ou menos bens materiais com mais tempo de lazer (como na Europa) — isso sugere que os EUA não têm um padrão de vida inequivocamente mais elevado do que o de países semelhantes.

11- A África não está destinada ao subdesenvolvimento
A África nem sempre esteve estagnada. Nas décadas de 1960 e 1970, quando todos os supostos impedimentos estruturais ao crescimento estavam presentes e eram, com frequência, mais restritivos, ela na realidade apresentou um desempenho de crescimento satisfatório. Além disso, todas as desvantagens estruturais que supostamente refreiam a África estiveram presentes na maioria dos países ricos de hoje — um clima desfavorável (ártico e tropical), a falta de acesso ao mar, recursos naturais abundantes, divisões étnicas, instituições deficientes e uma cultura ruim. Essas condições estruturais só parecem atuar como impedimentos ao desenvolvimento da África porque os países desse continente ainda não possuem as tecnologias, instituições e habilidades organizacionais necessárias para lidar com as suas consequências adversas. A verdadeira causa da estagnação africana nas últimas três décadas são as políticas de livre mercado que o continente foi obrigado a implementar durante esse período. Ao contrário da história e da geografia, as políticas podem ser modificadas. A África não está destinada ao subdesenvolvimento.

...Continua no próximo post

15 comentários:

  1. Algumas coisas já imaginava, outras foi um verdadeiro tapa na cara. isso gera algumas reflexões profundas. Os EUA e tantos outros é aquela velha história. faça o que eu digo, mas não o que eu faço. Discursos deles é conflitante com a prática.

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  2. Salve, Senhor Bufunfa! Achei a ideia geral muito enviesada para provar que o capitalismo é maléfico. O ponto número 11, sobre a África, não faz sentido algum. O autor ainda confunde em alguns pontos políticas estatistas com livre mercado.

    Não vou apontar todos os pontos que eu não concordo agora, depois, talvez, vou ler o livro e fazer um post sobre ele.

    Abraços!

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    1. Olá Marcelo! A questão é que ele não quer provar que o capitalismo é maléfico, apenas que algumas coisas são percebidas de maneira equivocada. Em relação à África, é interessante ler o livro para obter todas as ponderações para esta afirmação do autor. O que ele quis dizer é que a África não está fadada ao fracasso como muitos argumentam

      Abraços,

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  3. Algumas verdades e alguns esquerdismos sem fundamento.

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    1. Olá. Realmente parecem sem fundamento pois o autor faz essas afirmações fortes e depois faz os seus fundamentos.

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  4. "A verdadeira causa da estagnação africana nas últimas três décadas são as políticas de livre mercado que o continente foi obrigado a implementar durante esse período."
    meu deus...

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    1. Essa é uma afirmação do autor que parece chocante, mas quando vc lê o livro é entende os argumentos apresentados, começa a dar razão para muita coisa.

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  5. Olá SB,

    Vou ler esse livro. Parabéns pela indicação.
    Eu achei esse o texto meio esquerdista.

    Abraços.

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    1. Parece mesmo. acho q ele adota esse tom para ter uma certa repercussão. Quando vc lê o livro, entende os pontos do autor. Acho bem válido não ficar lendo coisas de somente uma linha de pensamento. Gosto de não me classificar em nenhum dos extremos.

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  6. Oi SB!

    Ótima dica! Não conhecia essa obra, mas já havia lido "Chutando a Escada", e me parece que a argumentação guarda alguma semelhança entre os dois livros. Essa discussão sobre conveniência da adoção do discurso de livre mercado em determinado momento histórico me interessa bastante. Adicionado à minha lista!

    Abraço!

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  7. Olá Sr Bufunfa

    Me interessei por esse livro. Vou lê-lo! Quanto aos pontos o 8 e 10 já tinha noção. Principalmente sobre "o capital tem uma nacionalidade" Vi alguns textos com a preocupação dos países devido aos crescimento de industrias na China. E para entrar na China, existe uns requisitos "diferentes" que por sinal preocupam esses países.

    E por sinal, belo post


    Abraços

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    1. Leia sim meu amigo! Ler o livro todo ao invés de pequenos tópicos é uma experiência bem diferente. Ele tem uma linha de pensamento não muito convencional nos dias de hoje, e mesmo não concordando com tudo, sempre existem pontos interessantes. Depois me diga o que achou. Abraços

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  8. Excelente texto, acho que vale a reflexão sobre todos os pontos comentados!

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